Quando tudo isso passar

Quando tudo isso passar


Publicado 07/04/2020 13:11
Atualizado 07/04/2020 13:19

Hoje, 7 de abril, dia do jornalista, completo 19 dias de quarentena e trabalho home office. Nossas funções, antes compartilhadas em uma redação, agora desempenhadas dos espaços de nossas casas. E embora lar seja sinônimo de conforto, nunca sentimos tanta saudade de sairmos dessa zona. O fato é que aquela frase "jornalista gosta de estar na rua" nunca fez tanto sentido. Enquanto alguns colegas espalhados pelo mundo desafiam o vírus lá fora em prol da informação, nós que permanecemos aqui dentro desafiamos nossas mentes a seguir, sem enlouquecer.

E eu sei que essa é a realidade de tantos outros profissionais que precisaram adaptar seus trabalhos, seus recursos, suas rotinas, em prol de um bem maior: o controle da doença no mundo. Nunca imaginamos passar por isso. Nem eu, nem você, sei disso. Em nenhum momento pensamos que estar em casa seria angustiante. Estar seguro nos traria tantas inseguranças. Estar protegido nos faria sentir tantas incertezas. Seguimos, mesmo com dificuldades. "Vai passar", repetimos em voz alta até acreditar que sim, tudo voltará, um dia, ao normal.

Pela sacada do apartamento, minha nova vista de trabalho, observo o céu, imagino as ruas, o trânsito e sinto falta até da dificuldade de atravessar uma via movimentada. O vírus veio, a pandemia se instalou, a quarentena nos isolou e então passamos a sentir saudade até do que antes reclamávamos. Eu, que tanto gostava de chegar em casa, não vejo a hora de sair. De me irritar com a quantia de pessoas na calçada, de exercitar a paciência numa fila de restaurante e de trocar de lado na rua por medo de um assalto.

Talvez a gente retorne mais esperançoso e mais crente na humanidade, quando isso tudo, finalmente, passar. Quando eu puder sair e passear com minha filha canina pela Imigrante. Quando eu puder abraçar minha mãe sem ter medo de causar um risco para ela. Quando eu puder marcar um café com minhas amigas e compartilhar uma gordice com meus colegas. Quando eu puder ir até uma fonte para entrevistar, quando puder planejar matérias especiais, quando a pauta principal deixar de ser o coronavírus.

Não. Também não gostamos de tragédia. Entretanto, precisamos sempre informar. Hoje, quando comemoramos nosso dia, também refletimos sobre o quanto nosso papel é importante na sociedade. Trabalhamos, muitas vezes sem reconhecimento da população, em prol das notícias que deixam todos vocês informados. Queríamos levar ao público apenas acontecimentos positivos, mas essa não é a realidade. E isso, muitas vezes, nos afeta e nos deixa mal. Afinal, não temos a escolha de nos mantermos afastados dos fatos tristes. Mas, temos o compromisso e a missão de não permitir que esses fatos deixem de ser divulgados. A  informação nasceu para todos e deve ser de todos. 

E então continuamos. Uns aqui, outros lá. Todos com medo. Sim! É permitido sentir medo, passar um dia sem ser tão produtivo, até chorar, quem sabe. Precisamos juntos acreditar num amanhã melhor, devemos sim fazer o possível para esperar da melhor forma possível, com saúde física e mental. Porém, não julgue a si mesmo se um dia não conseguir fazer nada além do essencial. Não deixe o exemplo de alguém na internet definir o quanto você deve estar bem. Cuide de você, sem se cobrar. Cuide de quem está ao seu lado, sem muito exigir. Cuide da sua mente, do seu coração e nunca - nunca mesmo - deixe de acreditar que tudo isso, um dia, vai passar. 

Quando tudo isso passar
(Foto: Pinterest )






Luiza Adorna Jornalista, sonhadora e escritora. Apaixonada pelas letras e pelo jornalismo desde criança. Gosta de observar a vida e registrar o que enxerga pelas ruas. Gosta de contar a história das pessoas. Gosta de narrar a existência humana. Notas de Rua é um blog sobre a vida, sobre o cotidiano e sobre aquilo que não deve passar despercebido.