Com constante alta nos preços, gastos básicos comprometem mais de 70% da renda mensal


Por: Portal Arauto
Fonte: Jornal Arauto
Publicado 12/09/2021 07:32
Atualizado 12/09/2021 07:32

Geral   ECONOMIA

R$ 795. Esse é o gasto aproximado que um santa-cruzense tem mensalmente com necessidades essenciais, como alimentos - levando em conta uma cesta básica com 13 produtos, como carne bovina, feijão preto, tomate, pão francês, batata inglesa, café, entre outros -, energia elétrica, água e gás de cozinha (veja mais sobre o cálculo no quadro). Para quem recebe um salário mínimo, no valor de R$ 1.100, esses custos comprometem mais de 70% da renda mensal. Além disso, esse indivíduo teria que trabalhar cerca de 159 horas no mês para dar conta destes gastos, o que equivale a quase 20 dias - levando em conta uma jornada de 220 horas mensais, o máximo permitido pela CLT. A situação que já preocupa, deixa a população em alerta, sobretudo pelos constantes aumentos nas despesas, como energia elétrica, cujo recente aumento na tarifa começou a valer no último dia 1º, e o GLP de 13 kg, como é popularmente conhecido o gás de cozinha, cujo valor alcançou os R$ 104 com tele-entrega no fim de agosto, conforme preço médio informado em última pesquisa do Procon de Santa Cruz.

Os gastos em questão - que totalizam o custo mensal de R$ 795 em média -, nem sequer levam em conta outras necessidades, também básicas, tais como moradia - seja aluguel ou financiamento -, produtos de higiene, telefonia, impostos, transporte, entre outros. Dessa forma, explica o doutor em Economia e professor da Unisc, Silvio Cezar Arend, os indíduos ou famílias acabam reduzindo seu padrão de consumo cada vez mais, seja em vestuário, mantendo uma moradia não adequada e se alimentando com menos qualidade. “O salário mínimo não dá conta de uma condição adequada de vida, de um padrão mínimo de calorias para a alimentação, não só em quantidade, mas em qualidade também. Aí, as famílias acabam optando pelos produtos ultraprossessados, que no teor nutricional não são a melhor opção e, assim, mais à frente, isso pode gerar problemas de saúde, desnutrição, ou até mesmo pior rendimento das crianças e adolescentes na escola”, avalia.  

O SALÁRIO MÍNIMO IDEAL

Silvio lembra, ainda, que se levados em conta apenas os gastos com alimentação - tendo como base a Cesta Básica Nacional de setembro, em Santa Cruz do Sul, ao custo de R$ 524,06, conforme levantamento do Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas da Unisc - estima-se que o valor do salário mínimo em Santa Cruz para o agosto de 2021, pago no início de setembro, deveria ter sido de R$ 4.369,65. O cálculo, que leva em conta uma família composta por dois adultos e duas crianças, prevê que o gasto mensal com alimentação não ultrapasse os 30% da renda. Seria o ideal, afirma o especialista, mas distante da realidade, ainda mais com a alta nos preços dos alimentos - que pode ser percebida no comparativo entre março de 2020 e setembro de 2021, quando a Cesta Básica Nacional passou de R$ 390,82 para R$ 524,06. 

VERA CRUZ 

Na Capital das Gincanas a realidade não é muito diferente para quem sobrevive com um salário mínimo por mês, ou até menos. É caso da funcionária de uma cooperativa de catadores, Giane Vieira da Silva, de 56 anos, que em determinados meses recebe apenas R$ 800. Quando a situação melhora, o salário chega a R$ 1.500. Ela conta que a renda mensal da família chega, em média, a R$ 2.750, aplicado no sustento dela, do marido, da sogra e da filha de 18 anos. “A gente paga primeiro as contas de necessidade básica, como luz e água, e se preciso compra fiado no mercado, para não deixar o alimento faltar em casa. E com o aumento do gás de cozinha, o jeito é recorrer ao fogão a lenha, como nesses tempos, em que fiquei 10 dias sem poder comprar gás”, revela. 

Para sua colega de trabalho, Mevelin  Guedes Camargo, de 28 anos, que paga um aluguel mensal de R$ 380, a situação é ainda mais preocupante. “Tenho dois filhos pequenos, de dois e cinco anos, e eles precisam se alimentar bem. Para eles, eu sempre procuro alguma oferta e garanto o alimento, já eu e meu marido comemos o que tem, só ovo se for o caso, mas a questão é que até o ovo tá caro”, indaga a jovem.

Infelizmente, avalia Silvio, a situação para Giane, Mevelin e tantas outras famílias deve levar tempo para melhorar. “Enquanto não tiver a recuperação do poder de compra dos assalariados, a situação não melhora.  Se a família não tem dinheiro para comprar, a indústria não produz, porque o comércio não vai encomendar dela, já que também não vende, e a situação segue impactando a todos”, explica o doutor em Economia.

CÁLCULO

O gasto aproximado de um santa-cruzense ao mês é calculado com base nos seguintes valores: custo da Cesta Básica Nacional em Santa Cruz do Sul em setembro, de R$ 524,06; gasto mensal em média com água por moradores do município, que chega a quase R$ 65 - levando em conta o consumo de 5 a 6 metros cúbicos ao mês, mais a taxa de serviço -, conforme a Corsan e sem contar a taxa de esgoto; o custo de um GLP de 13 kg com tele-entrega, de R$ 104; e o custo médio de R$ 100 de energia elétrica - considerando uma família econômica, sendo que na prática, esse gasto é bem mais elevado. 


Foto: Jornal Arauto / Taliana Hickmann
Para manter a geladeira cheia, Giane dribla os gastos
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Foto: Jornal Arauto / Taliana Hickmann
Para Mevelin, prioridade é o alimento para dar aos filhos
Para Mevelin, prioridade é o alimento para dar aos filhos