No dia a dia, tarefas simples desafiam deficientes auditivos


Por: Portal Arauto
Fonte: Jornal Arauto
Publicado 14/11/2021 09:00

Geral   ACESSIBILIDADE

É inegável que a tecnologia tem trazido muitos benefícios quando se fala em acessibilidade. Cada vez mais, o mundo se inclina para a revolução tecnológica, que em poucas décadas, transformou completamente a forma pela qual as pessoas se relacionam e comunicam. No entanto, algumas dificuldades ainda podem ser vistas em ações simples. Como um surdo faz para entrar em contato com órgãos de emergência? Atualmente, a maioria dos canais de atendimento é feita através da fala, algo que para as pessoas com deficiência auditiva, traz muitas dificuldades.

Conforme a tradutora e intérprete de libras (TILSP) da Prefeitura de Santa Cruz do Sul, Francine Beatriz da Silva, já ocorreram episódios de pessoas surdas que em razão da sua deficiência, não conseguiram acionar a emergência de forma rápida, por conta de toda a família apresentar problema igual. 

“Uma experiência que posso relatar é referente a uma família de Santa Cruz, em que todos na casa eram surdos, sendo os moradores dois idosos e a filha. Então, por volta das 5h30min da manhã, o homem de 83 anos teve um infarto e a filha não conseguia pedir ajuda ao SAMU, pois o serviço é acessado via telefone, o que para eles é impossível. Ela ficou tentando entrar em contato com alguma intérprete que pudesse chamar o serviço para a família. Isso levou algum tempo, pois como era de madrugada, eu, por exemplo, não vi a chamada, pois estava com o telefone no silencioso. Felizmente, ela conseguiu contatar com outra pessoa que chamou o socorro. Fico pensando se fosse um caso ainda mais grave em que cada minuto pode ser decisivo entre a vida e a morte”, destaca a intérprete.

Alternativas

Ainda, Francine destaca que utilizar os serviços de emergência que contam apenas com o telefone para ser acionado se torna inacessível para a comunidade surda. No entanto, a intérprete reconhece que a implementação de um sistema que possa facilitar a comunicação entre os surdos e órgãos de emergência é algo que deve ser trabalhada de forma conjunta. “Penso que um aplicativo ou um número de WhatsApp onde os surdos podem acessar o serviço e solicitar ajuda quando necessário seria um bom começo. Mesmo com o fator de acesso à internet sendo limitante em muitos locais, acredito que seria um ótimo primeiro passo rumo à acessibilidade desses serviços tão essenciais para os surdos”, salienta Francine, que integra a Central de Intermediação em Libras (CIL) de Santa Cruz.

Dificuldades

Com problemas de audição desde os 10 anos, tendo em um dos ouvidos quase 0% de audição e no outro apenas 15% de audição, o jovem santa-cruzense Guilherme Eduardo Alexsander Gonçalves, de 29 anos, conta que já teve dificuldades em atendimentos por conta da sua deficiência. “Teve uma vez que fui em um postinho de saúde e então logo informei na recepção que precisavam me chamar quando fosse minha vez para ser chamado. No entanto, quando chegou minha vez a pessoa não me chamou e eu também não prestei a atenção, ficando assim mais de duas horas esperando. Quando vi que outras pessoas estavam passando na minha frente, decidi ir até a recepção para entender o que estava acontecendo. Então, a pessoa da recepção foi na médica e ela disse que eu já tinha sido chamado, só que eu não ouvi. Para mim, todos os funcionários da saúde podiam ter um curso de libras básico, para poder se preparar para pessoas com deficiência auditiva”, ressalta.

Órgão de emergência irá debater possíveis alternativas

Conforme o comandante do 1º pelotão do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Cruz, tenente Evandro Leal, a corporação nunca passou por uma situação em que um surdo tivesse dificuldades de se comunicar através do canal de ligação. No entanto, diante do conhecimento das dificuldades, o tenente afirmou que caso seja viável, implementaria algum tipo de recurso sem problema algum. “Acho que tudo o que vier para melhorar e ajudar pode ser aplicado. Não havia passado por uma situação assim, mas agora tendo conhecimento sobre, acho que seria importante, pois quanto mais pessoas puderem nos acionar, mais poderemos ajudar”, destaca Leal. 

Atualmente, caso ocorra alguma emergência com pessoas que portem algum tipo de deficiência auditiva, tenente Leal recomenda que essas pessoas busquem ajuda com a pessoa mais próxima que encontrarem, pois  somente assim poderiam contatar os órgãos de emergência e serem atendidos, ressalta o comandante.


Foto: Divulgação
Dificuldades dos deficientes auditivos são recorrentes
Dificuldades dos deficientes auditivos são recorrentes